Já te contei?...

Porque há coisas que às vezes ficam por contar...

sábado, 28 de outubro de 2006

Alberto Caeiro

Sentir calor e frio e vento
E não ir mais longe

Uma vez amei, julguei que me amariam
Mas não fui amado
Não fui amado por aquela grande razão
Porque não tinha que ser

Consolei-me voltando ao sol e à chuva
E sentando-me outra vez à porta de casa
Os campos, afinal, não são tão verdes para os que são amados
como para os que o não são

Quando tornar a vir a primavera
Talvez já não me encontre no mundo
Gostava agora de poder julgar que a primavera é gente

Para poder supor que ela choraria
Vendo que perdeu o seu único amigo
Mas a primavera nem sempre é uma coisa
É uma maneira de dizer
Nem mesmo as flores tornam às folhas verdes
Há outros dias suaves
Nada torna, nada se repete, porque tudo é real

Quando vier a primavera
Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na primavera passada